domingo, 8 de junho de 2014

Não vai ser Copa!


Futebol não é um esporte dualista. Coisa rara, no futebol o empate é válido. Há sempre uma terceira opção e, ao contrário do que pensam os dualistas de plantão, o empate nem sempre significa a mesma coisa para os times em campo: pode ser ruim para ambos, bom para ambos e pode, inclusive, privilegiar apenas um dos times... Não é à toa que o futebol se tornou o esporte preferido da maioria das nações modernas, sua complexidade se ancora na dificuldade da realidade concreta: o futebol é o esporte contraditório por excelência!
Junte-se a isso, numa combinação infinita de contradições, que jogamos futebol falando português, a contraditória língua menos ordeira que há, ou, dito de outro modo, a língua que é ordeira pouca, contraditória muita, ou ainda a contradição em forma de língua que não acata ordens e nem tem ordens acatadas e por aí vai como sabemos com ou sem vírgula ou ponto final
A língua portuguesa não é dual. E uma das coisas que ela nos traz e trás e trai é uma confusão fantástica entre os verbos: ser, estar e ter. Ser e estar, por exemplo, apresenta a dialética do tempo que o to be e o être sempre invejarão, essa separação entre duas coisas inseparáveis, afinal como podemos ser sem estar? Talvez apenas em português, ou jogando futebol. Jogar futebol é falar português com a bola (menos para a seleção alemã, logo ela)!
Mas como somos mais desordeiros, como somos mais futebol ao falar e nossa escrita se concretiza é lá, no som da língua falada da rua, o verbo ter também complica o meio de campo da relação com o ser...e com o estar. Por um lado, o ter escrito significa possuir, ter remete ao acúmulo, ter remete a quantidade: “é melhor...ter”, diz a propaganda do banco.
Nossa língua, no entanto, faz o encontro do ter com o ser, mas não pelo viés óbvio da colocação da quantidade acima de todas as coisas... Para nós, ao falarmos, a realização de algo é vista como a posse do estar: vai ter? Ou não vai ter? Poderíamos perguntar: Poderei estar lá? Ou não? Ter ou não ter um acontecimento remete à sua forma de realização, à sua concretude de ser: possuir a existência. Afinal, vai ter Copa? Afinal, vai ser Copa? Estaremos em uma Copa ou não? Isso que vai ter, afinal, é? Ou não e?
Os dualistas insistem que ela acontecerá. Insistem que, sim, vai ter Copa! Mas o que haverá, pelo contrário, será a Copa do ter. Não estaremos em uma Copa do Mundo de Futebol. O que vai ocorrer aqui é a Copa do Mundo da Fifa: a que tem as coisas, e ter, aqui, é no sentido de acumular, no sentido escrito, do projeto, do contrato, do negócio. A Copa das Acumulações.
Aquilo que vai ter será a realização do esvaziamento do futebol, não apenas do esporte, mas do sentido vital que ele carrega. O futebol da quantidade substitui o da qualidade. O futebol de troca ao invés do futebol de uso; a impossibilidade do futebol arte, ou melhor, o futebol arte de galeria negando o futebol-grafite, matando o futebol-pixo.
É bom lembrar que o esporte, aqui no Brasil, era praticado por times que não somavam 11, mas 12, pois a partida sempre foi jogada também pela torcida. O nosso futebol, quando tinha, quando era, estava sempre inserido em um espaço que transcendia as quatro linhas: por isso era preciso estádios imensos, que coubessem cada vez mais pessoas para que o jogo fosse jogado por muitos e muitos. O futebol agora depende apenas de quem está dentro das quatro linhas (as linhas do televisor): é ordeiro, a torcida foi expulsa e seu lugar foi ocupado por espectadores, inclusive no estádio: por acaso Debord anunciou o futebol do espetáculo?
Por isso, há menos de uma semana do evento, não tenho medo em insistir que não vai ter Copa. Como dizem por aí, já não houve. E me desculpem os dualistas, mas este grito não é só contra você e nem contra o único inimigo que você consegue enxergar, esse grito é a favor da festa que ambos, empatados, mataram com a repressão.

Daqui a um mês estaremos em um país que terá passado por um evento que não houve, que não foi, que não esteve... Mas só quem sabe o futebol da língua portuguesa é que vai conseguir entender isso plenamente e, para aqueles que não falam mais essa língua, ou que a esqueceram, o melhor lugar de reaprendê-la, como sempre, é na rua. E é lá que o nosso futebol será jogado, falado. Traduzindo: lá vai ter muita luta, pois não vai ser Copa!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

CONDIÇÕES DE REALIZAÇÃO DA DEMOCRACIA: O CONSUNI, O SILÊNCIO E A VIOLÊNCIA.


Antes totalmente irresponsáveis, as massas hoje são capazes de compreender e decidir tudo. Iluminada pela violência, a consciência do povo se rebela contra toda pacificação. Os demagogos, os oportunistas, os mágicos tem, a partir de então, uma tarefa difícil.” (FANON, 1961, p.91, tradução minha1)

Quando Frantz Fanon terminou de escrever os “Os condenados da terra”, em 1961, no contexto das lutas de libertação da Argélia, teve sua obra censurada na democrática França, mesmo tendo sido o livro prefaciado pelo mais francês dos acadêmicos do Quartier Latin. Fanon, psicanalista e psiquiatra2 de formação, percebe, a partir do acompanhamento de muitos pacientes franceses e argelinos, soldados e vítimas dos soldados, que a violência estava necessariamente posta no contexto colonial e, a partir desta categorização, denuncia a farsa de que apenas os resistentes eram violentos. Seu livro contém, em seu primeiro capítulo De la violence uma defesa da violência praticada pelas forças de libertação argelina contra um estado praticante de inúmeras outras formas de violência, do racismo à tortura, que eram naturalizadas pelo contexto da colonização.
Esta defesa de Fanon não pode ser vista como uma absolutização gratuita de gestos agressivos entre diferentes corpos; a violência de Fanon é mais fértil quando compreendida como um conceito retirado de uma categorização do cotidiano agressivo da colonização. Ela é, em Fanon, uma proteção à ação do oprimido, que sempre será denunciado como violento por aquele que, violentamente, o oprime.
Ora, sendo ela, como afirma Fanon, uma condição de dada sociedade, é esperado que haja, portanto, seus traços na espacialidade que a partir dela é produzido. Mas como identificar a violência na produção do espaço? O senso comum logo identifica as ações de revolta como seu representante ideal: quebra-quebra, empurra-empurra, “vandalismo”, gritaria, pichações, ocupações. Marcas da violência seriam, assim, formas de desordem que transformam a normalidade da conformação hegemônica da cidade.
O senso comum, no entanto, não é despido ele próprio de violência. Observemos, portanto, o espaço brasileiro com mais cautela para compreendermos formas que teriam a capacidade de desvelar um contexto semelhante ao exposto por Fanon no caso argelino. Formas que se concretizam, principalmente, em ausências. Como identificar elementos de violência permanentes no espaço brasileiro que demonstrem que o senso comum apenas percebe um lado da violência, a reação do oprimido, deslegitimando-a em nome da paz e da ordem, segundo as regras de conduta que produzem o mesmo senso comum?
Uma das maneiras é através do entendimento de que espaço é concretização de história, isto é, não se produz espaço sem tempo. Ora, se o espaço é história, é também escolha e é também disputa. A permanência de elementos simbólicos na paisagem urbana, por exemplo, não está despida de violência. Muito pelo contrário, no caso brasileiro o espaço se reproduz sob o signo do silenciamento das vozes oprimidas, do sumiço das marcas das revoltas, de Alufá Licutã aos desclassificados do ouro, passando pela revolta da Chibata e suas pedras pisadas do cais. Agressivamente se produziu o silêncio na paisagem urbana, negando as lembranças de lutas várias, reproduzindo uma espacialidade sem conflito, simulacro de ordem como coerência: o espaço cordial. A cordialidade, como se sabe, é atributo da ruralidade, não é característica da cidade enquanto essência, isto é, enquanto lugar do encontro das diferenças, espaço do dissenso, da negociação, do conflito. A espacialidade brasileira urbana se reproduz forjando uma ruralidade na metrópole brutal. Reforça o silêncio em sua reprodução e, como tal, constitui uma falsa idéia de que a normalidade, a neutralidade, a tradição é a aceitação ordeira da realidade.
Ora, não pode a Universidade exercer ação de manutenção desta ruralidade, entendida aqui como condição de permanência da colonialidade. A universidade deve exercer, ensinando e aprendendo, a discordância enquanto método de sua manutenção e riqueza de sua existência. Necessariamente pública, a universidade não se realiza a partir da construção de esferas de iguais, de fóruns consensuais, de agravamento de violências que, como se sabe, são inúmeras: de gênero, de raça, de cor, de idade, de hierarquia de saber. É necessário que a universidade construa, cotidianamente, espaços de denúncia da violência silenciosa da “normalidade”.
A sala de aula não pode reproduzir a violência do autoritarismo, nem da negação da autonomia. A pesquisa não pode reproduzir a violência da heteronomia de saberes. À extensão, cabe denunciar a noção de dominação de um saber popular por um outro dito erudito. Da mesma maneira, os colegiados, congregações e conselhos devem denunciar a violência histórica que silenciou aqueles que lutaram pela democracia em tantos momentos pretéritos; devem permitir a polifonia da expressão do protesto, renovando, inclusive, a forma de protestar. Os conselhos não podem ser disfarçados em espaços de neutralidade quando a violência está dada em nossa história. Devem, muito pelo contrário, constituir-se como espaços de experimentação de democracias, fomentando cada vez mais vozes que expressem suas reações às violências!
Se aqueles que gritam, que dançam, que cantam e que argumentam com rigor e coerência o fazem pela garantia da autonomia, e não pela intencionalidade de calar e oprimir, que o espaço da universidade seja o local de sua realização plena: o CONSUNI da UFRJ não pode se transformar em um incidente de autoritarismo, sua tarefa é ampliar a realização da democracia.


Cláudio Rezende Ribeiro
Professor Adjunto e, portanto, Estudante da FAU-UFRJ
Conselheiro da ADUFRJ-SSind


1 FANON, Frantz. Les Damnés de la terre. Paris: La Découverte. 2002 (1961). 311p.

2 Imagino que ele teve a oportunidade de se formar em um bom hospital universitário público, já que o governo francês, ainda que colonialista e imperialista, não se arriscou a entregar os serviços públicos a uma EFSERH.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A RUA É UM VIR-A-SER!

Quando uma criança dá seu primeiro passo, ela experimenta uma sensação de liberdade que se repetirá a vida inteira. O risco de cair é grande, mas a criança sabe, porque elas já sabem muito, que maior é o risco de ficar parada.
A infância não se encerra na vida de criança e tampouco é algo exclusivo dos indivíduos, mas pois há também infâncias sociais. A infância enquanto sensação de descoberta, de risco e aprendizagem é sempre algo conturbado e maravilhoso, e a maravilha nos espanta porque é também um pouco assustadora.
Mas onde mora o susto? O susto mora no conflito de maravilhas. E foi isto que começou a ficar mais claro ontem: a maravilha de uns e enquanto anulação de outros. Anulação violenta e covarde, assustadora, intimidadora e estúpida. Mas existente. É inegável: a estupidez existe, a canalha existe, o nacionalismo violento também. A manifestação de ontem revelou para todos que estão vivendo a infância da ocupação dos espaços públicos, a infância da retomada da cidade, um obstáculo que pode fazer tropeçar: um comportamento obscuro, agressivo e intolerante, o tão falado homem cordial que surge para reprimir pois não sabe discutir. Não há diálogo na cordialidade, há adversários, há inimizades, há apenas anulação e violência, não existe espaço para conflito. Mas este espaço cordial é um obstáculo que deve ser superado: mais arriscado é ficarmos parados e sabemos isso desde pequeninos!
Que fazer? Dentre diversas ações possíveis, parece ser importante um entendimento imaginativo que deve pautar todas elas: as coisas não são, elas estão! A rua não é. A rua está, como nós, como o corpo social, em processo de (re)fazimento. A rua, se é algo, só pode se apresentar enquanto um vir-a-ser. A disputa está posta pela transformação do que aí foi colocado e revelado ainda que amargamente.
Pior era antes quando só havia, praticamente, o silêncio e as vozes dissonantes corriam isoladas e mais ameaçadas. Portanto, não se deixem abalar com as interpretações fatalistas que dizem: haverá golpe pois estamos repetindo 64. Acreditar neste discurso é tão perigoso quanto dar o golpe. A rua ainda está (e sempre estará) em disputa, temos que aprender a lidar com o caldeirão social que se apresenta e transformar este caldeirão ou estaremos, sim, fadados a respectivos golpes de intolerância... Se 64 levou a golpe, e se antes já houve outro, o que fazer para evitá-lo agora? O que fazer para evitá-lo em nosso imaginário? A primeira coisa é esquecer a idéia preconcebida de que a rua só seria maravilhosa se todos protestassem juntos pelas causas da esquerda e, portanto, as manifestações atuais devem ser evitadas pois levariam à fatalidade. Esse é o maior risco, pois abandonar a disputa é o pior, é construir a própria derrota. Conseguiremos levar às ruas as causas justas e isso será incrível. Mas não vai ocorrer sem uma construção desta justiça. O direito à cidade está em jogo e ele só será consolidado se exercido enquanto tal: conflituar a cidade é reforçar a democracia e a liberdade, não recuemos para a cordialidade. A democracia se constrói no conflito e a cidade só existe enquanto realização da democracia (que não é a democracia do voto apenas, mas a democracia da autonomia).
Portanto, agora a porta está aberta, temos que ocupar os espaços com sabedoria, com justiça, com rapidez. Vencemos a primeira barreira, chamamos todos para o debate, e eles vieram! Fomos nós que chamamos, foi a esquerda, pois ela é quem acredita no debate!! Nunca se esqueçam disso: as manifestações são uma conquista da esquerda, não as abandonemos jamais! Mas não se iludam: se ter debate é uma vitória, isso não significa a garantia de vitória no debate.
Ontem vimos como tomar partido é difícil, como é perigoso; medimos algumas fraquezas, mas, principalmente, mostramos a força que há na rua. Conquistemos o que está em disputa, nada foi ainda decidido!
Tomem partido!

E, para aqueles que acham que antes dos protestos estava tudo melhor, saiba que você, meu caro, já foi derrotado, essa era já passou... A rua é um vir-a-ser, que ela seja um vir-a-ser justo, livre e, obviamente, belo!
(imagem feita pelo #ocupânciaUFRJ com Banksy e Quino dialogando: bela como a rua!)

terça-feira, 7 de maio de 2013

O cálculo versus a saúde pública


As ironias do destino são incontáveis. Hoje eu vivenciei uma caprichada. Em plena luta contra a privatização dos hospitais públicos universitários que tem sido travada devido à imposição da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), eu tive o desgosto de me sentir muito mal depois de uma aula e parar numa emergência de um hospital privado no mesmo horário de uma audiência pública sobre a Empresa. Isso faz pensar... A primeira coisa (além da dor absurda) que me vinha à cabeça era a coragem de Florestan Fernandes, sempre apostando na saúde pública como forma, inclusive, de protesto, revelando as melhores e piores questões de nosso sistema que precisa de ampliações e melhorias sempre, e que nunca pode recuar.
Bem, passada a questão de auto diminuição pela sombra de Florestan, e permanecendo a dor insuportável que me afligia (a cara dos que me observavam me dava a certeza de que eu devia estar parecendo o super homem do mundo bizarro com minhas contrações devido ao cálculo renal que resolveu se mexer certamente incomodado com a EBSERH), comecei a observar algumas questões que merecem ser colocadas aqui. Muitos dirão: veja só, defende o hospital público e foi procurar o setor privado na hora do “vamo vê”. Este tipo de crítica rasa eu deixo aos próprios críticos responderem, é claro, não percamos tempo com isso agora, pois há algo mais interessante a ser destacado. Esta vivência de hospital privado que tive hoje reforçou totalmente minha convicção de que não podemos abrir a saúde universitária à tiranização da lógica da eficácia, do lucro, da empresa em detrimento da lógica do uso público. Ao mesmo tempo me mostrou formas de resistência e permanência do humano mesmo nesse terreno pantanoso das redes hospitalares. Não é simples perceber isso, mas é esclarecedor quando se entende.
Assim que fui recebido pela enfermeira fui parar em uma salinha com uma cama onde fiquei aguardando atendimento por alguns eternos 10 minutos dançando uma espécie de “kidney break dance” com direito a moonwalking e tudo, quase um harlem shake sem música. A médica chegou em seguida e me examinou rapidamente de forma tremendamente humana. Com isso quero dizer que ela percebeu que a dor me incomodava muito (não foi difícil) e me garantiu que faria tudo o mais rápido possível para cessá-la e garantir, ao mesmo tempo, um diagnóstico correto. Prestem atenção nisso, a rapidez alegada pela médica para sua ação que se transformou em algo realmente apressado surgiu em função de seu entendimento de que eu, o outro ser humano naquela sala, precisava desta urgência. Passada esta etapa, fui realizar o exame de sangue (ainda dançando harlem shake, mas com um braço imóvel para receber a agulhada, uma espécie de valsa pós-moderna) e em seguida fui receber os benditos analgésicos na veia... A dor cessou. Após ser atendido por médicos e enfermeiros que construíram uma relação humana comigo, conseguimos resolver a emergência, com o único dolo de que eu cessei meu espetáculo dançante... Ou não, mas aí a música que tocou começou a ser outra.
Passada esta emergência, eu precisava receber meus exames para saber, afinal, o que tinha acontecido comigo de forma mais detalhada. Ainda havia ansiedade, somada ao cansaço, fome e o receio da dor voltar, etc. Mas algo deu errado. Por alguma razão de organização logística (da eficaz rede privada, vejam só!) meus exames não chegaram onde deveriam no tempo correto. Atrasaram, e muito. Fiquei quase uma hora e meia, senão mais, numa sala aguardando estes resultados que não deveriam demorar mais que vinte minutos. Como isso foi resolvido? Aí é que mora o segredo. Aí revela-se a ameaça priivada. O sintoma é que, por alguma razão, o atendimento se transforma de uma etapa para a outra. A lógica se altera e a construção de humanidade que foi realizada entre a médica e os enfermeiros para comigo cessou. De repente me vi no meio de uma empresa, perguntando no balcão o que estava acontecendo e recebendo respostas padrão telemarketing, padrão companhia aérea, isto é, respostas que não respondem. Além disso, não havia mais a predisposição dos funcionários em resolver o problema para mim, pois ali eu não era mais visto como um paciente fragilizado e preocupado, cansado, provavelmente com fome. Não, ali eu voltei a ser visto como um número que estava aguardando alguma coisa. Ali a desumanização imperou e eu tive que, ainda em recuperação e com aquela agulha da sonda em minha veia, ficar insistindo, brigando para que eu fosse atendido. A saúde perdeu lugar para a (in)eficáca do sistema, não havia mais preocupação comigo, mas com o funcionamento de uma máquina que estava com defeito – o próprio hospital e sua gestão – e eu era visto quase como um culpado. O caráter público necessário para a saúde; do usuário humano que foi construído anteriormente ruiu para o caráter privatizante, da troca, do número, do cliente, do lucro. Ali mesmo, no território privado da saúde, a resistência humana ainda ocorre, mas não consegue, obviamente, realizar-se plenamente, pois chega um momento em que há poucos funcionários, os médicos se escasseiam, a saúde cede lugar para a gestão... Passada a emergência, a eficácia gerencial permite a desumanização e a espera incômoda e perversa de quem ainda não sabe o que teve.
Resultado em mãos, saí do hospital com minha esposa (que garantiu humanidade o tempo todo) e topamos com a médica que me atendeu inicialmente... Ela interrompeu seu lanche e me perguntou como eu estava, se tinha melhorado e me ouviu contar, um tanto agradecido, que eu já estava bem, coisa e tal. Um gesto humano, esperado e que completou o ciclo inicial.
Assim é a lógica pública. A médica não me olhava como um cliente, mas como um usuário, um paciente, um ser humano. Interessava a ela saber o que aconteceu comigo, mesmo que apenas para que eu pudesse falar um pouco de meu alívio para o médico que me atendeu. A lógica numérica, gerencial, elimina esses contatos.
Na universidade, do mesmo modo. Quando temos 140 alunos por semestre (4 turmas, 15h/aula/semana, três conteúdos distintos) devido a uma lógica privatizante que assombra a universidade, sou impedido de conhecer os estudantes de maneira mais próxima. Esta lógica na universidade é combatida todo dia, em sala de aula, na luta para transforrmá-la em uma arena pública onde prevalece o ensino e a aprendizagem, a descoberta, a dúvida, o erro e o risco. Um esforço cotidiano é construir a sala de aula como um espaço e um tempo onde não há lógica de competição, de comparação, de avaliação vazia de conteúdo, de treinamento e, ainda mais, sem prazer. Construir o público é uma luta contra o privado. É uma luta contra a desumanização. A luta contra a EBSERH é isso. A Empresa é o atendimento no balcão do hospital, são os 140 por semestre, a Universidade é a médica, é o professor aprendendo com o estudante, é a construção do público autônomo. Entender essa diferença é importante (mas vocês não precisam de um cálculo renal para isso, não é mesmo?).

sexta-feira, 22 de março de 2013

Aldeia Maracanã e o inegociável, ou uma proposta de acervo para o Museu Olímpico


O Brasil ganhou, em toda a história das olimpíadas modernas, 23 medalhas de ouro. Cada uma representa algo além da vitória e das lágrimas emocionadas da conquista. Pois estas medalhas de ouro representam, no seu revés, todos os outros atletas que não conseguiram se sobressaltar, que não tiveram nem apoio para praticar sua modalidade, que não tiveram condições para poder se realizar enquanto ser humano independentemente do resultado vitorioso.
Eu sugiro que este seja o acervo do Museu Olímpico que irá substituir de forma bárbara a Aldeia Maracanã – certamente com o auxílio de algum arquiteto da moda, ou quer estar na moda, e que fará o projeto vistoso com retrofit e tudo o mais. Sugiro que seja colocada em cada espaço do casarão uma das medalhas que o Brasil ganhou, representando ali os esportes que praticamos no dia a dia e que apenas poucos conseguem vitória: moradia, cidadania, direitos humanos, igualdade de gênero, igualdade de raça, educação pública, saúde, informação de qualidade, distribuição de renda, lazer, terra, trabalho e liberdade... Junto com isso, compondo o Museu, decorando as paredes, os despojos do Célio de Barros, do Julio de Lamare, da Friedenreich, da Vila Autódromo, da Indiana, do Morro da Providência...
As medalhas estariam dispostas de tal forma, com iluminação especial e tudo, que se conseguiria enxergar além do ouro que as reveste, o sangue que as preenche, e cada visitante poderia comprar na loja de souvenir um chaveirinho de spray de pimenta, um mini-cacetete, uma camisa estampada do BOPE ou até mesmo uma criativa noite com uma indiazinha em algum motel de luxo.
Por fim, o Museu Olímpico pode exibir também uma peça que guarda uma aura fenomenal, a Constituição Federal, representando ali os tempos em que boa parte da população acreditou que a Nova República seria possível e que a ditadura desapareceria de vez... Afinal, o maior erro foi daqueles que achavam que os anos de exceção nunca voltariam e que acreditaram que a falta de liberdade era peça de museu...
A estupidez ocorrida hoje com a expulsão dos índios que habitavam a Aldeia Maracanã tem muitos significados e ainda servirá de inspiração para muita luta. A barbárie explícita foi a única maneira que o Estado (unindo ali município, estado e nação) tinha para resolver seu problema, pois os índios conseguiram encurralar o sistema ao decidirem que aquele espaço era inegociável. Ali era o único lugar com história capaz de dar conta de seu projeto de instaurar uma novidade na cidade, uma outra cultura que enriqueceria a atual revelando seus problemas; uma relação social que não se pautava na negociação numérica, do valor da quantidade, do dinheiro. Não havia preço para a Aldeia Maracanã, pois ela não era possível de ser substituída. Ali habitava um ponto cego do capital, e quando este ponto cego é exibido no centro da cidade, não pode ter tolerância, pois a ameaça é enorme... A truculência excessiva revelada hoje representa não apenas aquilo que sustenta hoje o Estado a elite econômica; sua força excessiva representa também o tamanho de seu medo. E é bom que eles temam mesmo!


quarta-feira, 20 de junho de 2012


A greve como renovação do espaço público universitário

Uma contradição que deve ser superada a respeito do espaço da universidade pública brasileira reside na concepção que se faz dele, isto é, no imaginário, no senso comum que se produziu sobre sua dinâmica de reprodução na qual o caráter autônomo e coletivo seriam a regra. Talvez devido à existência de inúmeros momentos combativos e de resistência que povoam a memória coletiva com ações de estudantes e professores universitários em momentos históricos de luta, disseminou-se a idéia de que o cotidiano do espaço universitário seria a reprodução destes momentos de exceção numa eterna luta constante pela conquista da autonomia democrática e cidadã. A universidade pública seria o baluarte social de resistência ao mercado. Não que o cenário não possa vir a ser este; até seria extremamente positivo se cada aula se tornasse um ambiente de condução política de realização do caráter público que reforce a emancipação contínua dos estudantes e professores. Mas, pelo contrário, esta representação do espaço universitário não encontra eco nem em seu espaço de representação e muito menos nas práticas sociais que lhe integram.
O espaço da universidade revela a contradição das práticas sociais ali reproduzidas, como ocorre com qualquer outro espaço. Ao caminhar, por exemplo, pelo edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ que abriga, além deste curso, a Escola de Belas Artes, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional e a Reitoria da Universidade, percebe-se claramente a cisão entre a imagem consolidada e sua realização concreta. Os espaços de graduação, aqueles destinados à maioria dos estudantes e futuros profissionais, encontram-se em um lento processo de transformação que evidencia ao mesmo tempo inconstantes melhorias atropeladas por uma, cada vez mais acelerada, degradação. Já nos espaços das diversas pós-graduações ocorrem outros cenários que, mesmo que não sejam os ideais, demonstram uma diferença gritante na espacialidade da universidade brasileira. Da existência de ar condicionado, de computadores, de espaços de reunião e orientação adequados, passando por uma movimentação constante de professores e estudantes em tempo integral, estes espaços revelam, por oposição, a fragilidade das salas quebradas da graduação, com suas carteiras velhas, sem instalações de mídia ou rede digital e com poucos professores para muitos alunos... O espaço universitário concretiza uma das mais profundas contradições que impedem que aquele imaginário do espaço público existente se realize de forma concreta: a carreira docente.
A forma como esta prática social, a profissão de professor universitário público, tem se construído nas últimas décadas simula a existência de uma meritocracia que premiaria as “produções de excelência”. Ora, este formato mina a possibilidade de manutenção da diferença posto que o critério do que é excelente representa uma construção social que aponta na direção daquilo que se produz segundo os critérios da reprodução social hegemônica. A excelência, na maioria das vezes, constrói-se em forma de reprodução e não de transformação já que a própria existência do excelente pressupõe seu outro, o pior (que é também o diferente), numa clara cópia da lógica social do mercado. Assim, trata-se não de conteúdo da carreira, mas da forma como ela é construída. A carreira docente é formatada de maneira a resultar esta espacialidade da segregação acadêmica.
Esta característica traz um triplo impacto à prática de ensino que ajuda a explicar seu reflexo no espaço e a partir dele. Primeiramente, se o critério de excelência se baseia na lógica pré-existente do mundo, há pouca possibilidade de realização de algo que contradiga a realidade social na qual a universidade está inserida, esta ilusão da meritocracia é bastante conhecida e não precisa ser aqui repetida a exaustão. Quem define o que é meritório sempre terá mérito. Em segundo lugar, dado que a sociedade capitalista se mantém a partir da centralidade da lógica do mercado que se baseia na competição como motor de melhoria, é óbvio que o espaço universitário irá corresponder ao espaço da competição onde a diferença se converte, na maioria das vezes, em inferioridade, criando espaços maravilhosos que se destacam ainda mais pela opacidade dos seus concorrentes. Em terceiro lugar, a concretude do mercado na carreira do professor universitário converte seus colegas em competidores muitas vezes impedindo importantes colaborações numa clara tiranização da educação pela lógica competitiva da economia “não política”, produzindo um espaço onde não é a troca nem a experiência educativa de aprendizagem que o alimentam, mas uma crescente diferenciação. Ao se ampliar a escala de entendimento do espaço da universidade, por exemplo, para todo o Campus da Ilha do Fundão, esta diferenciação aparece no contraste entre as “ilhas de investimento” que estão cercadas por “espaços em degradação”. A tirania da lógica produtivista é tão abrangente que o prédio mais novo (e mais radioso) do campus não é um edifício pensado para a educação, mas um novo centro de pesquisa da PETROBRÁS que, em contraste com o resistente e degradado Hospital Universitário é o mais claro reflexo da espacialidade universitária que vem se consolidando nas últimas décadas. O espaço da educação cada vez mais é apropriado pelo espaço corporativo numa espécie de especulação intelectual-urbanística nos campi.
Tem sido assim, ou melhor, era assim... Mas eis que chega a greve. No momento em que se consegue romper com esta ilusória idéia do espaço público universitário devido a um entendimento por parte de seus usuários das condições concretas de seu espaço e de suas práticas sociais, cria-se a necessidade de pausa, de ruptura. Ao se compreender o caminho percorrido pelo cotidiano do trabalho acadêmico, o corpo social da universidade decide parar. A continuidade, o progresso, a marcha automática é interrompida. Este é um significado importante desta greve que não pode se perder. A pausa se deu num momento onde a reflexão se torna uma necessidade que só pode ocorrer em um tempo suspenso, em um novo espaço.
Quando o corpo universitário percebe que ele não tinha mais tempo de refletir, ele cria este tempo a partir da greve. Rapidamente, este se converte também em novas espacialidades de liberdades já anteriormente desejadas que se concretizam de forma quase sufocante: inúmeras aulas ao ar livre, assembléias, produção e exibição de filmes, debates públicos, ocupâncias de espaços que ganham e criam novas significações. Esvaziam-se as salas e se conquistam os vazios de outrora. Concomitantemente a universidade também volta à rua, grita, realiza-se enquanto luta e enquanto conquista de sua autonomia auxiliando a reconstrução do espaço público da cidade.
Estes novos espaços, por sua vez, abrigam novas práticas sociais. Critica-se, entende-se, questiona-se; a universidade passa a tomar conhecimento de si mesma, são debatidos o ensino, a pesquisa, as condições e relações de trabalho... Estudantes questionam a postura dos colegas e dos professores. Professores se reconhecem em diferentes saberes e embates, o conflito reaparece também, aliviando o silêncio anterior. Aos poucos as práticas reconquistam o rumo da autonomia universitária, possibilitando que, após a pausa, não haja um retorno à lógica anterior. A greve, aos poucos, mostra que sua conquista não se dará apenas com seu fim, mas com o resultado daquilo que o tempo ali construído coletivamente será capaz de produzir, isto é, uma renovação de idéia, da concepção do que é e do que pode ser uma universidade pública brasileira, só que agora informada pelo concreto, rompendo assim com o espaço da ilusão. O espaço público, lugar de realização da autonomia, volta a ser vislumbrado.

Cláudio Rezende Ribeiro é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ

domingo, 11 de dezembro de 2011

A partir de amanhã...


Entrar amanhã na FAU será diferente de todas as outras vezes já feitas por mim. Desde que me mudei para o Rio em 2004 aquele prédio é parte presente em minha vida. Por incrível que possa parecer, para este mineiro que se mudou para o litoral não são as praias da zona sul a paisagem mais marcante do meu Rio de Janeiro, mas a Ilha do Fundão e, mais especificamente, o prédio da FAU.
Amanhã esta paisagem se alterará. Porque amanhã será o primeiro dia que pisarei aquele prédio sem poder encontrar Ana Clara. A Professora Ana Clara Torres Ribeiro foi uma das pessoas mais marcantes que conheci. E que conhecerei. Sua ausência precipitada anunciada de supetão nesta última sexta-feira criou um vácuo que nunca será preenchido. Nunca. Porque a vida é assim, construída com presenças. Presenças não são mensuráveis, portanto, são insubstituíveis. O vazio criado pela ausência de Ana Clara permanecerá, não há nada que o preencha.
Haverá, no entanto, o aprendizado. Ana Clara me ensinou com toda sua doçura a enxergar e entender a brutalidade brasileira para saber combatê-la. Ensinou-me que o pensamento percorre trajetórias as mais impossíveis, inclusive as mais prováveis e pode, por isso mesmo, nos surpreender; da mesma forma mostrou como somos capazes também de surpreender com o nosso pensamento mas, sobretudo, com nossa ação. Ana Clara, com sua ação em sala de aula me ensinou muito além de todo o conteúdo teórico, ensinou-me o prazer de ser aluno ao mesmo tempo em que me mostrou como é bom ser professor. Ela tinha essa capacidade, conciliando ação e pensamento, de nos aplicar a própria teoria ensinada combatendo a brutalidade com sua prática. Isso tudo ficará.
Mas seus sorrisos, seus abraços e seu carinho, essas ausências todas deixarão, para sempre, mais frio todo o prédio da FAU, a partir de amanhã...


quarta-feira, 30 de março de 2011

Hora extra

Parar de fumar pode ser uma experiência como qualquer outra dependendo da maneira como se lhe encara. Pode ser tão satisfatória como observar o temporal que cai lá fora e assusta e purifica e suja e limpa a cidade ao mesmo tempo. Pode ser tão imperceptivelmente dolorosa como olhar-se no espelho toda manhã sabendo-se o mesmo e diferente e repetindo o gesto no dia seguinte assim como se fez no anterior. Parar de fumar...fumar...fumar...fumar...fumar...
Sobretudo, para mim, é uma questão de tempo. O cigarro sempre foi um ótimo companheiro de espera, uma espécie de vírgula existencial. Chamo o táxi e enquanto ele não vem: um cigarrinho. Intervalo da aula acabou e até que os alunos voltem de seus afazeres: um cigarrinho. Vamos sair mas a companhia ainda tem que terminar de se arrumar, ou tocou o telefone: um cigarrinho. Lendo, dez páginas de teoria pesada, pausa para compreensão maior, lá se foi mais um; lendo, cinco páginas de teoria razoável, ôpa; lendo, cinco páginas de um romance difícil, demorô; lendo, cinco páginas de besteirol, mais um; lendo, duas páginas, uma página...ora, bolas, fume logo uns dois cigarros de uma vez antes de voltar a ler esse jornal!
Questão de tempo, 12 cigarros por dia, cinco minutos cada um, ganhei uma hora em meu dia; mas quem disse que eu precisava desta hora? Esta era exatamente a hora que eu fazia questão de perder, de gastar sem nada fazer, nada além de fumar... Agora se foi, tenho que me recompor e reaprender a construir meu tempo, domando esta hora extra e me acostumando a tomar café com pensamento sem fumaça.
Questão de tempo: quando eu tiver oitenta, quem sabe...


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O inesperado

(Não devemos registrar nossas idéias quando estamos bêbados: nem por telefone, nem por e-mail, nem mesmo Facebook ou twitter que possuem o delete. Mas não posso deixar de relatar o que acontece agora, bêbado que estou de alegria pelo Egito)
Há coisas que não esperamos. Ano passado ganhei de presente um iPod de minha amada... Foi surpesa friamente calculada, o bichinho ficou escondido meses em minha casa antes de se revelar. Estranhei o aparelhinho no início mas, como costuma acontecer, gostei dele. Reconheço que me tornei um quase dependente dessa prótese (o que me requenta os tempos de infância quando a-do-ra-va o personagem Doc do desenho Galaxy Rangers...ele tinha um iPod!!).
Pois bem, há alguns dias eu baixei a Al Jazeera para acompanhar ao vivo as movimentações no Egito cuja cobertura pela nossa imprensa, obviamente, foram pífias (e continuarão a sê-lo). Virava e mexia, nas situações mais bizarras que a portabilidade permite, estava eu assistindo o povo na Praça Tahrir, encantado com a resistência crescente do povo egípcio...
Ontem, ao chegar de Campos, Renata me disse que Mubarak havia feito um pronunciamento afirmando que não sairia e eu disse: então ele vai sair! Especulação pura, um relógio parado acerta duas vezes a hora todo dia, mas a massa não parava de crescer na praça desde o dia do despejo quando o ditador teve sua chance de sair ainda sem o rabo entre as pernas mas desconfiou do inevitável. Eu simplesmente chutei que ele sairia devido ao comportamento usual dos políticos cretinos que sempre afirmam o contrário de suas ações, e fiquei na torcida...esperando...esperando o quê?
Deixei meu iPod ligado enquanto resolvia coisas no computador e, de repente, olho e vejo o vice-presidente realizando um anúncio, sem prestar muita atenção no conteúdo... E eis que uma das coisas mais incríveis aconteceram. No volume máximo, meu iPod começou a gritar e gritar anunciando a alegria de milhões de egípcios diretamente da praça Tahrir que, neste momento, chamava-se Egito; segurei-o com as duas mãos e ele vibrava, vibrava enquanto eu me arrepiava e meu olhos se enchiam d'água por estar ali carregando a liberdade tão pertinho de mim...
Havia um locutor de rádio em BH, Willy Gonzer, que era adorado por sua torcida atleticana. Ele parou de narrar os jogos do Galo há uns dois anos. Willy era muito sensível e, na hora do gol, antes de dar o grito derradeiro, deixava correr o som do estádio: mudo segundos antes da bola entrar e se explodindo logo depois junto com seu grito de gol... Era lindo ouvir a torcida...Nunca vi um narrador assim. Da mesma forma, a generosa Al Jazeera, ao contrário das outras todas emissoras, soube respeitar o momento e se calou, transmitindo por uns dez minutos imagens ao vivo com som local, aquela gritaria feliz, assovios, choro, abraços...uma torcida comemorando todos os gols da história do seu time.
Há coisas que inesperadas: elas podem se chamar presentes, mas podem também se chamar revolução!





terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Caiu na rede é peixe

Não acredito em muita coisa...deixei de crer em deus há algum tempo...não acredito em duendes, anjos, fadas, espíritos...não acredito na lei de mercado e muito menos no estado centralizador...não acredito na democracia que está aí, aliás, não acredito que vivemos em uma democracia, conseqüentemente, sou muito refratário à via eleitoral...mas, creiam vocês, acredito nos homens.
Este post é sobre algo que não acredito: sites de "compras coletivas" cujo o mais famoso, para mim, é o tal do Peixe Urbano.
Muita gente tem embarcado nessa nova onda internética medioclassista (não acredito na classe média também, rs, mas não sei onde foi parar o operariado, rs) crendo estar fazendo um bom negócio. A questão é: bom negócio para quem? Para mim, nunca será bom negócio me inscrever em algo que fomenta a compra daquilo que não quero (não acredito em publicidade). A lógica apregoada destes sites é de que, comprando em coletividade, consegue-se preços melhores do que aqueles praticados pelo mercado...um "vantajão"... Enxergo estes sites de uma forma bem distinta: precisam vender algo, anunciam ali como queima de estoque e você compra, isto é, trata-se de uma última tentativa da fuga do prejuízo, uma ferramenta administrativa pós estoque que beneficia aqueles que não conseguiram fazer um bom planejamento de vendas e, pasmem, mantém os preços do mercado mais altos! Sim, pois se os produtos não estão vendendo como deveriam, o ideal seria que a produção se diversificasse ou mesmo que seu preço abaixasse, no entanto, quando um produtor consegue vender o restolho de seu prejuízo, ele pode muito bem manter os preços como estão e, na hora H, lançar mão destes sites de "compra coletiva", ou "distribuição coletiva do prejuízo": trata-se de uma armadilha em forma de sedução (isto analisando apenas pela lei de mercado da oferta e da procura...e, advinhem, eu também não acredito nela).
Mas além de toda essa simplória análise da cadeia produtiva, existe uma questão que, para mim, é mais grave: quem disse que eu quero comprar o que oferecem? A última coisa de que preciso é mais um lugar me dizendo o que fazer, o que comprar, quando e onde fazê-lo. Estes pequenos hábitos nos tornam mais e mais consumistas e, por mais que o consumo seja uma coisa boa, assim como o mercado também o é, o risco que se corre é dar-lhes uma primazia sobre sua vida, isto é, quando mercado e o consumo passam a controlar seu hábitos é que é o problema. E estas ferramentas de compras não são nada mais do que isso, mais uma forma de te impelir o consumo que você nem pensava em fazer: mas tá tão barato...
Ou seja, quem decide sua vida? Sei que isso pode soar exagerado, mas creio nas pequenas formas de controle como sendo muito poderosas (evito ser acadêmico demais aqui neste blog, mas a microfísica do poder foucaultiana está aí para nos provar que não minto sozinho).
Estes sites aceleram nossa vida para a velocidade cada vez mais extenuante do mercado. Criam um modo de vida que se utiliza da forma de interação das redes sociais, mantendo-nos presos e curiosos todo o tempo, sempre ligados, mas, neste caso, para fins unicamente de consumo. Prefiro manter uma vida mais lenta, aprender com a vagareza, compreender o homem lento de que Milton Santos tanto nos dizia (ai, a academia)... Nem tudo é bom na modernidade, pelo menos eu não acredito que tudo o seja...pelo menos não para mim...

P.S.: Este post surgiu do comentário da amiga Clarisse Bressan, médica, comentarista profissional e cantora em seu Facebook: "Não tenho velocidade suficiente pra comprar em sites de compras coletivas"...Nem eu, minha cara, nem eu...


Acho que essa imagem já apareceu nesse blog...mas vale o repeteco.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Laerte e o fim do dualismo

Sei que o assunto já foi mais que explorado pela mídia, mas considero Laerte "a" personalidade de 2010. Sua postura colocou muita coisa em questão. Não, sua postura colocou muita coisa importante em questão.
Muito além da sexualidade, ele tocou em um ponto que devemos nos atentar: o dualismo. Estamos acostumados a pensar e agir de forma dualista e isso é, na minha opinião, um entrave para uma transformação social de fato. Se antes pensávamos, para começar com a bola levantada por Laerte, em dois sexos, depois de muita luta pelo reconhecimento da homossexualidade passamos de um dualismo a outro. Do masculino versus feminino fomos para... o homossexual versus heterossexual. Simples assim, dualista assim, preto no branco assim. Pobre assim.
Daí vem Laerte e coloca o dedo na ferida.
Da mesma forma agimos em diversos outros campos, por exemplo, como no caso eleitoral. Ou se era Dilma ou se era Serra, ou se era PT ou se era PSDB. Quanta falta de imaginação. Quantas mil vezes eu criticava a Dilma e tinha sempre que terminar obrigatoriamente com a frase: critico Dilma, mas não apoio Serra. Trata-se de uma idéia muito pobre de escolha como que derivada entre a velha e inexistente batalha entre o bem e o mal, entre democratas e republicanos, zzzzzzzzzzzzz...
Dualismo dá sono, empobrece o debate e enfraquece a possibilidade de mudança. O que me surpreende é que a sociedade brasileira tem todos as razões de romper com o dualismo: não somos pretos nem brancos, não somos centro e tampouco periferia; não jogamos basquete, mas futebol (o esporte menos dualista de todos, pois há sempre a possibilidade de ninguém ganhar e mesmo dos dois times perderem). Mas, ainda assim, recaímos sempre no comportamento hegemônico do dualismo... observemos isso e nos transformemos: há muitas opções para tudo neste mundo, o ser humano é improvável, imprevisível e surpreendente, não recaiamos na chatice da previsibilidade.

Dualistas de todo o mundo, imaginem!


domingo, 9 de janeiro de 2011

Da difícil (e prazerosa) tarefa de escrever...

Há quase um ano não escrevo aqui. Mas, depois de muitas tentativas de volta - e espero não parar de escrever daqui pra frente - retorno à minha escrita... Mudarei algumas coisas neste blog, o que significa que não escreverei exclusivamente sobre a relação entre literatura e a cidade. O tema, obviamente, não será abandonado de vez, mas não será obrigatório, afinal de contas não faz muito sentido eu me ver castrado por uma regra que eu mesmo criei. Depois de romper com Deus a última coisa de que necessito é de um novo impostor de regras.
Escrever não é fácil. Cada dia fico mais acostumado a apenas ler ou ver; e, de forma bastante incômoda, escrever fica sempre pra depois, mas por quê? Suponho haver um zilhão de respostas a isso, desde a formação educacional que não nos estimula à ação até mesmo às facilidades que a passividade nos oferece cada vez mais: tornamo-nos "seres informados" pelos twitters da vida (que eu adoro) e divulgamos informações de forma tão rápida que beira a náusea, mas ao mesmo tempo nos transformamos em seres que não produzem informação. E escrever é produzir. E produzir não é fácil. No entanto, ao contrário do que pensam aqueles que igualam dificuldade com sofrimento, eu acho que produzir é extremamente prazeroso. Difícil e prazeroso, escrever é assim.
Ao mesmo tempo é arriscado demais escrever, pois corremos um risco enorme de sermos lidos. Sermos lidos... É um pouco assustador, mas faz parte da ação, da produção, da escrita, da disputa. Escrever é disputar, é dar a cara a tapa, é apanhar, é bater, berrar, beliscar, bolinar, burlar, brigar, beneficiar, brincar, batizar, bolar, bilhar, bala, bela, bila, bola e bula.
Como é bom! Mesmo quando é um textinho sem vergonha apenas para aquecer os dedos e o teclado, já faz uma diferença enorme tê-lo postado, com a última ressalva aos possíveis leitores que as próximas produções serão mais interessantes que essa, pois escrever também é transformar!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Tradução


É possível traduzir uma cidade? Visitar La Plata proporciona uma experiência próxima. Trata-se de uma tradução para o espanhol de Belo Horizonte. Na verdade, o oposto, posto que é mais antiga que a capital mineira. Estranho é identificar seu traçado, sentir que você sabe caminhar em uma cidade que visita pela primeira vez... Há outras formas, é certo; há diferentes expressões, outras gírias, mas o sentido do texto está ali, cravado no plano urbanístico. As esquinas são quase as mesmas e as perspectivas imaginadas aqui e nunca vivenciadas devido ao sítio inadequado dos morros belorizontinos lá estão como que a realizar um entendimento mais fiel ao texto original.
Não, Belo Horizonte não é uma tradução de La Plata, uma adaptação talvez. O português brasileiro de cá se revelou agressivo, como que se nosso excesso de fonemas forçasse uma contaminação dos espaços, desmanchando a rigidez mantida no espanhol, dando-lhe mais sonoridade, mas, devido a isto, eliminando o silêncio dos espaços públicos tão belos que ainda permanecem em La Plata.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Budapestes

Meu primeiro contato mais detido com esta cidade foi através do livro do Chico. O segundo foi in loco, ao passar pouco mais de 48 horas na capital húngara. O último foi por um outro livro, Budapeste 1900, de John Lukacs (que não tem parentesco nenhum com o Georg). Em todas as três visitas a língua se tornou a personagem fundamental. Chico Buarque parte dela ao construir seu labirinto, é sabido daqueles que acompanham sua carreira que ele desconhecia a cidade antes de escrever sua obra. A única língua que o diabo respeita realmente é muito estranha para nossos ouvidos latinos (aliás, para todos os ouvidos não húngaros). Felizmente, a barreira da comunicação foi facilmente vencida pela disponibilidade e carinho do povo budapestino em minhas aventuras por lá. A cidade se mostrou muito mais do que imaginávamos e ainda hoje sou justamente criticado por minha esposa que, intuindo melhor que eu, desejava destinar mais tempo de nossa viagem àquele paradeiro... Budapeste é grande. Grande e bela. Bela e densa. Densa e calma. Enfim, é uma daquelas cidades que nos desafiam a fuxicar cada canto, como deveriam ser todas as cidades. Obviamente o fato da língua incompreensível é um chamariz a mais por proporcionar uma sensação de deslocamento constante.
Foi com esta vontade que comprei o livro Budapeste 1900, de John Lukacs. Queria saber mais sobre sua história, sobre suas ruas, seu povo, sua língua. E eis que descubro a exceção que confirma a regra: mesmo com sua língua, mesmo com sua cidade, o livro é enfadonho.
Como toda história, há diversas formas de se contar a saga de uma cidade. Mas o ponto de partida de John Lukacs é uma decepção (não consigo escrever apenas Lukacs sem pensar que estou me referindo ao outro, a confusão cerebral é grande, e não conseguiria escrever este texto malhando um Lukacs e tendo o outro como referência) . John trata Budapeste de uma forma essencialmente ocidentalizante, querendo transformar Budapeste em Paris. O que ele faz com aquela cidade equivale às obras urbanísticas de Pereira Passos ao Rio de Janeiro: um desastre sobre diversos pontos de vista.
A vontade de ocidentalizar-se é tamanha em John que seu texto, revestido de erudição, recai em uma ingenuidade que beira a chatice. Se terminei de ler o livro, foi mais por uma homenagem à cidade, e também foi um desafio de me forçar a ouvir aqueles dos quais discordo, para tentar ganhar a sensação de deslocamento tão agradável que as ruas de Budapeste me proporcionara. No entanto, se quiserem ver um relato literário de cidade de forma bem mais interessante, optem pela ficção de Chico, ou então mudem de lugar, viajando pela Istambul de Pamuk (já escrevi sobre ele aqui em um post mais antigo). Boa viagem!





segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Diamantina

A beleza de Diamantina não é sincera. É forjada na violência da permanência forçada. A praça, o beco, as pedras...Tudo ali foi feito sobre o sangue dos outros, sobre a opressão dos outros. E, hoje, cruelmente, o tempo não pode passar e as lembranças da autoridade se mostram como conquistas da civilização.



sábado, 25 de julho de 2009

Rio de Salazar

Após longa jornada retorno aos meus escritos que já me despertavam saudades. Após a batalhatravada na defesa de minha tese, escrevo agora com uma certa leveza, uma pulsão diferenciada.
Li há pouco Rio das Flores, do português Miguel Sousa Tavares - que insisto em chamar de Manuel Sousa Teixeira talvez por me soar um nome mais lusitano e também possuir as mesmas iniciais esquerdistas. Um de seus personagens se desencanta com Lisboa do início do século passado sobretudo por se sentir sufocado em um Portugal condenado a uma ditadura pleonasticamente estúpida. Talvez por influência da obra e somado a uma percepção de quem passa pela cidade com um olhar curioso, começo a me sentir assim em relação ao que o Rio está se tornando.
Hoje em dia a cidade me parece um amontoado de letras perdidas num caos que tem tudo para ser explendidamente criativo, porém, em cada margem, em cada linha de todas as páginas reinam espaços de desencontros forçados que não permitem a reunião das letras para formar sonoras palavras e nem destas para completar frases que precisam ser escritas. A recém criada secretaria de ordem pública é o projeto acabado de uma censura urbana que se consolida como rumo de um futuro triste onde há polícia em todas as esquinas com armas brutais comandando proto-bestas fardadas.
Salazar se mudaria para cá, se o romance de MST se passasse no século XXI.


terça-feira, 26 de maio de 2009

A paisagem indesejada - ou a mea culpa

Estava o arquiteto a fotografar, veio uma pessoa a lhe atrapalhar...A pessoa na escada, a escada no foco, o dedo no disparador e o arquiteto a chorar...
Não tiramos fotos com gente! E por mais que acessemos todos os argumentos possíveis para justificar esse nosso vício, ele diz muito a respeito de nosso horror profissional às pessoas. Somos treinados assim em nossas escolas de arquitetura e nos acostumamos a isso ao folhear as revistas límpidas que parecem mais registros de espaços pós-apocalípticos que qualquer outra coisa.
Nossa formação destorce a relação necessária com o ser humano e nos transforma em produtores de espaços para o nada, ou melhor, para o olhar distanciado e, de preferência, especializado. Desconsideramos aqueles que constróem nossas obras, que as habitam e lhes dão mais que vida, lhes dão sentido e lhes transformam...Quanto horror temos à transformação, quanto apego às idéias, aos modelos. E, só para problematizar mais um pouco a situação, chamamos os usuários de nossas obras de: clientes...Quanta distorção. Não é à toa que a arquitetura vai de mal a pior, e nossas cidades juntamente se transformam em espaços de dissocialibilidade. Como somos responsáveis por isso tudo...
Enquanto tirarmos fotos sem pessoas, continuaremos a escrever enciclopédias e nunca alcançaremos a poesia. E, nesse cenário todo, e em nome da contradição necessária, olhemos o trabalho de Gabriele Basilico, que sabe como ninguém fotografar a cidade vazia...E creio que muitos encaram sua obra como elogio ao nosso trabalho...Quanta petulância.

Para quem não conhece:






terça-feira, 5 de maio de 2009

Errata

Foi um atraso que me fez pensar que o texto não seria publicado. Uma semana e pouco depois do previsto, recebi o aviso me dizendo o contrário. Está lá, como um complemento a um outro texto sobre o mesmo assunto dos muros, que recomendo a leitura.

Segue o link para o texto principal:


sexta-feira, 24 de abril de 2009

A política do concreto armado.

Hoje publico um texto que fiz para que, talvez,  fosse publicado em um site de arquitetura. Como a coisa está se encaminhando para uma não publicação, seja pelo teor do texto, seja pela censura arquitetônica, seja pela qualidade da minha escrita, sabe-se lá, publico aqui mesmo. Se sair no referido site aviso aqui também.
Trata-se de uma crítica à política dos paredões que estão sendo erguidos em favelas cariocas, tema ao qual me debrucei em meu mestrado, há uns quase quatro anos. Difere um pouco do tom (e do tamanho) usual dos textos deste blogue - assim grafa Saramago - mas, afinal de contas, de que vale um blogue com um único estilo de abordagem...talvez a tudo, salvo à representação da cidade.
Aproveito a deixa para justificar a minha ausência nestes últimos meses, mas minha tese está sendo parida e não estou encontrando energia para depositar neste espaço...espero que isso logo mude!

A POLÍTICA DO CONCRETO-ARMADO: REFLEXÕES URBANÍSTICAS SOBRE OS PAREDÕES QUE CIRCUNDARÃO AS FAVELAS DO RIO DE JANEIRO

 

Por Cláudio Rezende Ribeiro [1]

O governo do Estado do Rio de Janeiro acabou de desmentir o mito de que os territórios populares da cidade do Rio de Janeiro, também conhecidos como favelas, são locais onde não há a presença governamental. De acordo com o senso comum, as favelas seriam territórios separados da cidade formal, uma espécie de corpo estranho no tecido urbano, onde a ilegalidade impera principalmente pela ausência do Estado nestas áreas.

Mas eis que, contrariando tudo que se diz, propaga-se, dissemina-se e até se acredita a respeito do assunto, o Governo do Estado do Rio de Janeiro (doravante GERJ) demonstrou que essa não é a verdade, ao menos não é a verdade desta gestão. Mais ainda, contrariando a tradição social e política brasileira, o GERJ desmontou este senso comum não apenas no reino das idéias, mas de ações concretas, inclusive com valores relevantes para calar a boca daqueles que medem projetos governamentais pelo custo: segundo a Folha de São Paulo (perdoem-me a fonte, mas foi onde encontrei o dado [2]) a ação custará 40 milhões de Reais aos cofres do GERJ, para alegria da empreiteira vencedora que vai conseguir manter seus lucros em margem bastante confortável em uma época de crise, vivificando um keynesianismo meio zumbi.

Sei que muitos estão indignados com as palavras ditas acima. Ora, dirão, este senso comum da ausência do Estado nas favelas já foi há muitas gestões desconstruído posto que a todo momento este envia àquelas áreas diversos representantes institucionais responsáveis pela manutenção da segurança pública, a assim chamada Polícia Militar, que não cansa de demonstrar em diversas ações diárias que, sim, o Estado, com todo seu poder está presente naquelas áreas. De modo algum permitiria a ação de uma mão invisível liberal nestas áreas, como comprovam os tapas levados por diversos inocentes e culpados por mãos nem um pouco invisíveis, aliás, parece-me que são mãos manchadas de diversos tons entre o vermelho e o roxo. Entendo a indignação, fui injusto e imparcial ao classificar a ação do GERJ como inovadora, mas me referia mais especificamente àquilo que os governos e a grande imprensa costumam assumir como suas ações, ou seja, obras. E estas, obviamente, são difíceis de se encontrar nas tais regiões... Pelo menos eram até agora!

Fora o PAC, que é ação do Governo Federal e não cabe aqui entrar em detalhes no momento, nada de novo ocorria nas favelas cariocas até o anúncio da grande obra milionária: os eco-limites.

O ineditismo da ação, porém, está em sua concretude, não em sua idéia. Há alguns anos a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (doravante ALERJ) fez proposta semelhante de erguer um muro em torno Favela da Maré, em nome da segurança dos cidadãos de bem, ou seja, os que possuem automóveis e trafegam pela Linha Vermelha e em detrimento dos pobres, que nem mais poderiam vender diversos gêneros alimentícios àqueles cidadãos em seus engarrafamentos diários [3]. A ação foi proposta por aquela casa e vetada pelo GERJ de então, sem nenhuma consulta, obviamente, aos moradores do local. Obviamente que isso não impossibilitou a revolta dos mesmos que prontamente organizaram panfletos, manifestos e protestos contra o possível enclausuramento, mostrando para quem quisesse ver que os pobres são detentores, pasmem, de consciência política e de capacidade de organização.

Mas chega de cinismo! Aliás, devo me justificar, certamente este cinismo tem fundo em algum conflito psicológico entre minha formação genética que me fez destro e meus pensamentos e ações sinistros que em alguns momentos se reflete desta forma, ou seja, o cinismo aparece certamente quando meu lado destro fala mais alto como numa tentativa de me tornar mais governista, tipo a grande imprensa, e deixar de ser crítico, daí a necessidade de ironia, caso contrário minha mão direita assume sua invisibilidade de vez e impossibilitaria a conclusão deste texto pela dificuldade datilográfica.

 

DAS CONTRADIÇÕES POSSÍVEIS ENTRE O CAMPO URBANO E O AMBIENTAL

 

Oportunidade como esta não pode ser desperdiçada por nós, intelectuais, pois são situações privilegiadas onde a crítica pode se aproveitar para demonstrar sua capacidade de transformação de pensamento e gestos, além do mais, omitir-se num momento como este é ação grave.

A primeira coisa a ser colocada em debate aqui é a justificativa do muro como sendo interessante para os moradores das favelas. Geralmente esta justificativa é dada por “não moradores” destes locais, que não costumam ter voz nem ação ativa em nossa organização democrática. Mas, enfim, o que se quer expor aqui é que a justificativa se pauta em nome da convivência pacífica com muros. Diversos argumentos super-afinados espalhados por inúmeras reportagens jornalísticas apresentam a tese de que muros existem em condomínios, em casas, e isto seria, além de normal, aceitável, desejável e de fácil de convivência.

Se também não posso falar em nome dos favelados, falo em meu nome: não me dou muito bem com muros, grades e afins. Não gosto das praças do Rio de Janeiro que são cercadas, não gosto que as entradas de diversos prédios, inclusive o meu, possuam grades, que, via de regra, são feias – a única grade bela do mundo está em Salvador, no Campo Grande, desenhada por Carybé. Não me agrada tampouco o prédio em frente à minha janela, que é uma espécie de muro que não me permite ver nem um pouquinho da rua. Mas entendo quem goste de muros, e é por isso que eles escolhem muitas vezes morar em condomínios, isto costuma ser um a opção, não uma imposição. Ora, os pobres do Brasil nunca foram consultados em relação a quase nada e sempre se viraram sozinhos, sem apoio do Estado, para tudo, principalmente para moradia, acredito que se desejassem muros, já teriam os feito, e com menor custo que os atuais, obviamente. Soa-me assim um tanto quanto arriscado dizer que viver cercado por muros é coisa aceitável, principalmente quando quem viverá murado será o outro.

A grade do Campo Grande em Salvador, exceção que confirma a regra da feiúra de tais elementos (acervo pessoal do autor).


Outra coisa a se destacar é o argumento ambiental tantas vezes utilizado para uma ação em ambiente urbano, que autoriza nomear o paredão – pois o muro está mais para um paredão – de eco-limite. É bom que os urbanistas abram seus olhos para este tipo de confluência de pensamentos e de ações. Todos devem abrir os olhos, aqueles que nunca pararam para pensar nisso devem fazê-lo para não cair na ingênua aceitação deste discurso, e aqueles que o proferem devem ter consciência de que lado político estão quando dizem tal coisa, para não se enganarem quanto a possíveis reações críticas e práticas futuras.

Esta mescla de discurso ambiental e urbano pode ser bastante saudável. Traz, sem dúvida, inúmeras contribuições progressistas para o debate como a questão de um melhor uso da água, do solo, de um melhor desenho urbano voltado para diferentes fontes energéticas e renovadas críticas sobre as matrizes de transporte contemporâneas, para ficar no mais óbvio. Há inúmeros ganhos. Mas não se pode descartar uma aproximação crítica deste novo pensar. Deve-se levar em conta que o pensamento ambiental está carregado de alguns vícios que foram a duras penas afastados do pensamento urbano ao longo do século XX e que retornam agora com outra roupagem.

No início do século passado houve a conhecida onda do higienismo, quando as propostas de reforma urbana, sempre pensadas e realizadas de cima para baixo – isso nunca mudou – eram orientadas para uma limpeza da cidade em nome do combate a doenças que se espalhavam com mais força em certas áreas devido ao rápido e precário crescimento do tecido urbano. Acontece que as áreas doentes, que deviam ser extirpadas como um câncer, eram as áreas pobres, sempre mal vistas como sujas. Este tipo de pensamento desencadeou ações que se tornaram impensáveis décadas mais tarde, graças a muita luta popular, como as remoções de favelas. A lógica era: há lugares sujos, possíveis focos de doença – isso faz mal à cidade – vamos limpar do mapa estes locais.

Não se quer aqui reduzir o urbanismo do início do século passado (aliás, originado em finais do XIX) apenas neste tipo de ação. A ele deve-se também a vulgarização de parques urbanos, por exemplo. Mas há em sua lógica aspectos que não devem ser esquecidos.

Encarava-se a cidade como um corpo que deveria ser saudável. Note-se bem que não se levava em consideração que as pessoas que moravam naqueles locais considerados doentes também faziam parte deste corpo. Quem executava esta política cheia de diagnósticos e outros termo médicos, ou seja, esta medicina social, sabia bem a quais classes deveria enviar mais tarde seu boletim médico satisfatório. Os pobres estavam fora de qualquer decisão e se tornariam alvo de inúmeras remoções, com imensas perdas sociais, em nome de um discurso bem colocado de limpeza, higiene e saúde.

Muita movimentação e luta popular levou ao descrédito tais tipos de ação autoritária no campo urbano. Porém, hoje algo similar, com nova retórica, volta a dominar o pensamento urbanístico. E é isso que possibilita se pensar propor e construir muros que cercam apenas a população pobre em nome de um discurso ambiental. Deve-se ser cauteloso com a tal “causa verde”, pois esta, aos poucos, está trazendo de volta um pensamento anti-social em relação à cidade. Se antes eram as doenças e a sujeira que comandavam os médicos urbanos, hoje é a paisagem e o verde que comandam seus estetas. Pois me parece muito mais um discurso estético isso que se faz hoje nas favelas, ao invés de se extirpar um câncer, hoje se quer conter o avanço de uma gordurinha indesejada. Ao invés de se resolver, primeiramente, os problemas sócio-ambientais existentes dentro das favelas, como a ausência de saneamento básico, de postos de saúde, de bibliotecas, arborização e por aí vai, quer se gastar fortunas no impedimento da propagação dos pobres, deixando em condições mais precárias espaços urbanos que, muito pelo contrário, necessitam de melhorias. Aliás, com a construção dos muros, obviamente, a verticalização se intensificará nas favelas, piorando ainda mais as condições urbanas e ambientais dos estreitos becos existentes nestes espaços.

Enfim, é necessário que se pense seriamente na aceitação de tais atitudes, é preciso que todos os professores, alunos e profissionais da área urbana, enfim, todos envolvidos neste campo se posicionem sobre este assunto. Seja a favor ou contra os argumentos utilizados, p que me soa mais importante é que haja clareza da posição assumida. Parece-me inadmissível, por exemplo, encontrar justificativa para tais muros e ao mesmo tempo se reclamar das mazelas de uma cidade cada vez menos democrática. São ações incompatíveis! Voltar a crer em um discurso que naturaliza situações sociais é regredir, é ir contra a luta popular histórica que conseguiu denunciar e criar uma consciência de melhoria dos locais de moradia dos pobres, que, aliás, não necessariamente permanecerá como tal, já que não acredito na permanência natural e eterna da situação dos pobres do mundo.

E, por último, mas não menos importante, é bom que se evidencie também a possibilidade real deste discurso ambiental mascarar a continuidade da política de extermínio que se pratica nos morros e favelas do Rio de Janeiro, num movimento que une um Muro (ou Paredão) e a Polícia Militar (e milícias e afins) criando uma ação do Estado que se pode chamar de, voltando à ironia, política do concreto-armado.

 


[1] Mestre em Planejamento Urbano e Regional. Doutorando em Urbanismo pelo PROURB-UFRJ.

[2] Disponível on-line em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u550240.shtml e também em http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u544553.shtml.

[3]Sobre este assunto me debrucei durante meu curso de mestrado. Disponível em: http://teses.ufrj.br/IPPUR_M/ClaudioRezendeRibeiro.pdf.