sábado, 25 de julho de 2009

Rio de Salazar

Após longa jornada retorno aos meus escritos que já me despertavam saudades. Após a batalhatravada na defesa de minha tese, escrevo agora com uma certa leveza, uma pulsão diferenciada.
Li há pouco Rio das Flores, do português Miguel Sousa Tavares - que insisto em chamar de Manuel Sousa Teixeira talvez por me soar um nome mais lusitano e também possuir as mesmas iniciais esquerdistas. Um de seus personagens se desencanta com Lisboa do início do século passado sobretudo por se sentir sufocado em um Portugal condenado a uma ditadura pleonasticamente estúpida. Talvez por influência da obra e somado a uma percepção de quem passa pela cidade com um olhar curioso, começo a me sentir assim em relação ao que o Rio está se tornando.
Hoje em dia a cidade me parece um amontoado de letras perdidas num caos que tem tudo para ser explendidamente criativo, porém, em cada margem, em cada linha de todas as páginas reinam espaços de desencontros forçados que não permitem a reunião das letras para formar sonoras palavras e nem destas para completar frases que precisam ser escritas. A recém criada secretaria de ordem pública é o projeto acabado de uma censura urbana que se consolida como rumo de um futuro triste onde há polícia em todas as esquinas com armas brutais comandando proto-bestas fardadas.
Salazar se mudaria para cá, se o romance de MST se passasse no século XXI.


terça-feira, 26 de maio de 2009

A paisagem indesejada - ou a mea culpa

Estava o arquiteto a fotografar, veio uma pessoa a lhe atrapalhar...A pessoa na escada, a escada no foco, o dedo no disparador e o arquiteto a chorar...
Não tiramos fotos com gente! E por mais que acessemos todos os argumentos possíveis para justificar esse nosso vício, ele diz muito a respeito de nosso horror profissional às pessoas. Somos treinados assim em nossas escolas de arquitetura e nos acostumamos a isso ao folhear as revistas límpidas que parecem mais registros de espaços pós-apocalípticos que qualquer outra coisa.
Nossa formação destorce a relação necessária com o ser humano e nos transforma em produtores de espaços para o nada, ou melhor, para o olhar distanciado e, de preferência, especializado. Desconsideramos aqueles que constróem nossas obras, que as habitam e lhes dão mais que vida, lhes dão sentido e lhes transformam...Quanto horror temos à transformação, quanto apego às idéias, aos modelos. E, só para problematizar mais um pouco a situação, chamamos os usuários de nossas obras de: clientes...Quanta distorção. Não é à toa que a arquitetura vai de mal a pior, e nossas cidades juntamente se transformam em espaços de dissocialibilidade. Como somos responsáveis por isso tudo...
Enquanto tirarmos fotos sem pessoas, continuaremos a escrever enciclopédias e nunca alcançaremos a poesia. E, nesse cenário todo, e em nome da contradição necessária, olhemos o trabalho de Gabriele Basilico, que sabe como ninguém fotografar a cidade vazia...E creio que muitos encaram sua obra como elogio ao nosso trabalho...Quanta petulância.

Para quem não conhece: