quarta-feira, 30 de março de 2011

Hora extra

Parar de fumar pode ser uma experiência como qualquer outra dependendo da maneira como se lhe encara. Pode ser tão satisfatória como observar o temporal que cai lá fora e assusta e purifica e suja e limpa a cidade ao mesmo tempo. Pode ser tão imperceptivelmente dolorosa como olhar-se no espelho toda manhã sabendo-se o mesmo e diferente e repetindo o gesto no dia seguinte assim como se fez no anterior. Parar de fumar...fumar...fumar...fumar...fumar...
Sobretudo, para mim, é uma questão de tempo. O cigarro sempre foi um ótimo companheiro de espera, uma espécie de vírgula existencial. Chamo o táxi e enquanto ele não vem: um cigarrinho. Intervalo da aula acabou e até que os alunos voltem de seus afazeres: um cigarrinho. Vamos sair mas a companhia ainda tem que terminar de se arrumar, ou tocou o telefone: um cigarrinho. Lendo, dez páginas de teoria pesada, pausa para compreensão maior, lá se foi mais um; lendo, cinco páginas de teoria razoável, ôpa; lendo, cinco páginas de um romance difícil, demorô; lendo, cinco páginas de besteirol, mais um; lendo, duas páginas, uma página...ora, bolas, fume logo uns dois cigarros de uma vez antes de voltar a ler esse jornal!
Questão de tempo, 12 cigarros por dia, cinco minutos cada um, ganhei uma hora em meu dia; mas quem disse que eu precisava desta hora? Esta era exatamente a hora que eu fazia questão de perder, de gastar sem nada fazer, nada além de fumar... Agora se foi, tenho que me recompor e reaprender a construir meu tempo, domando esta hora extra e me acostumando a tomar café com pensamento sem fumaça.
Questão de tempo: quando eu tiver oitenta, quem sabe...


3 comentários:

Petrô disse...

Putz, o texto foi um emprego pra hora a mais... gostei muito, do texto da atitude, rs

Ca e Trovão disse...

Sorte nossa que agora você tem mais tempo pra escrever textos como esse. 'tamo contigo, brother!

Renata disse...

Ei, gostei da ideia d tempo sobrando... Egoísta eu? Coisa de apaixonada...